sexta-feira, 3 de julho de 2020

O Festival de Cinema de Maringá


O Festival de Cinema de Maringá

A. A. de Assis



Os mais antigos se lembram do sucesso. A cidade estava com apenas 11 anos, não tinha sequer uma rua asfaltada, porém já ousava fazer artes de gente grande. Ousou, por exemplo, um dia, brincar de Cannes. Isso mesmo: para espanto geral, fez-se aqui, de 3 a 10 de maio de 1958, o I Festival Nacional de Cinema de Maringá.De começo é preciso falar do articulador dessa proeza: Renato Celidônio, paulista descendente de ilustre família quatrocentona, ex-líder estudantil, engenheiro agrônomo, líder ruralista, cafeicultor caixa-alta, mais tarde deputado federal, consagrado como principal político do PTB (depois MDB) da região de Maringá. Um homem de quem todo mundo gostava.
Renato era, ao mesmo tempo, um inquieto animador social. Basta lembrar que foi um dos fundadores do Maringá Clube e do Clube Hípico. Seu irmão José Hugo Celidônio, que posteriormente virou celebridade como um dos maiores ícones da gastronomia no Rio de Janeiro, morava aqui também naquela época e foi um dos fundadores do Clube Olímpico. Os dois conheciam meio mundo nas altas rodas do Rio e São Paulo, aconteciam nas colunas do Ibrahim Sued e do Jacinto de Thormes e dividiam mesa nos bares cariocas com os mais badalados astros e estrelas do cinema brasileiro.
Pois foi numa dessas conversas de bar que a ideia nasceu. “Vou levar vocês a Maringá para um festival diferente de todos os que se fazem no mundo”, disse Renato num de repente. Os minutos seguintes foram para ele descrever Maringá: “É uma cidade que está nascendo no norte do Paraná, numa clareira da mata. Não tem quase nada ainda, mas tem uma beleza de hotel (Grande Hotel), um baita cinema, e um povo raçudo bom à beça”. 
Aqui chegando, ele levou o projeto para o prefeito Américo Dias Ferraz, que, festeiro de nascença, abriu um sorrisão e de bate-pronto respondeu: “Topo”. Renato chamou Zé Hugo, Tertuliano dos Passos, Luís Carlos Borba e mais alguns amigos, traçaram uns esquemas e foram conversar com o Ivens Lagoano Pacheco, diretor do “O Jornal”. Apoio irrestrito, com direito a manchete de primeira página: “Cinema Brasileiro terá Festival em Maringá”. 
Veio aqui o primeiro time da tela nacional: Anselmo Duarte, Liana Duval, Alberto Ruschel, Andréa Bayard, Carlos Alberto Souza Barros, Odete Lara, Eva Wilma, John Herbert, Mário Sérgio, Celeneh Costa, Lola Brah, Ana Maria Nabuco, Miriam Persia, os diretores Lima Barreto e Roberto Santos e outros mais.
Arrmou-se uma grande passarela na Avenida Getúlio Vargas, na porta do Cine Maringá, por onde entravam os atores, atrizes e demais personalidades. Numa das sessões, até o bispo Dom Jaime entrou junto, ao lado do prefeito e do Celidônio. Foi uma semana de sonho e encantamento. A grande mídia nacional deu ampla cobertura. Maringá entrou na história do cinema. Belíssimo registro nas atas de uma população pioneira.

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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 02-7-2020)



sexta-feira, 26 de junho de 2020

“Aqui criamos juízo”

“Aqui criamos juízo”

A. A. de Assis



Numa certa manhã, meados dos anos 1960, um dos pioneiros da cidade desceu do carro em frente ao local onde estava sendo construída a nova catedral de Maringá, ao lado da antiga igrejinha de madeira. Lá estava, em visita às obras, nosso primeiro bispo, Dom Jaime Luiz Coelho. O grandioso templo, projetado para chegar a 124 metros (mais 10 contando a cruz a ser colocada no topo), já estava com cerca de 30 metros. O homem aproximou-se, cumprimentou o bispo, fez uns rodeios, pediu licença e disse: 
– Olhe aqui, Dom Jaime, se eu fosse o senhor, mandava parar a construção no ponto em que está, que está muito bom assim, botava um telhado por cima e pregava uma placa dizendo: “Aqui criamos juízo”. 
Graças a Deus Dom Jaime não criou “juízo”. Abraçou o amigo, agradeceu o conselho, porém disse que continuaria a obra até o final. No meio da conversa ainda conseguiu que o homem prometesse continuar ajudando, como de fato continuou: no dia seguinte mandou entregar lá um monte de sacas de cimento. 
O querido pastor estava acostumado a ouvir espantos relacionados com a imponência do novo templo. Com frequência alguém lhe dizia: “O senhor é um homem peitudo mesmo. Pra tocar uma obra dessas tem que ter muito tutano”. Ele respondia: “Peitudo, na verdade, não sou eu; é o povo de Maringá. Sou apenas um homem de fé. Desde que aqui cheguei senti a fibra desta gente. Tenho certeza absoluta de que vamos juntos concluir logo a construção”. 
Ele via a cidade crescer rapidamente em todos os sentidos. Achava então que a Casa de Deus teria de ser grande também, para mostrar que a espiritualidade estava em primeiro lugar no coração das famílias pioneiras. Imaginou um grande cone apontando para o céu, procurou em São Paulo o célebre arquiteto José Augusto Bellucci e em abril de 1958 expôs aos fiéis a maquete da futura catedral. 
Quatro meses depois, no dia 15 de agosto, festa da padroeira Nossa Senhora da Glória, fez-se o lançamento da pedra fundamental – um pedaço de mármore retirado das escavações da basílica de São Pedro, no Vaticano, bento pelo papa Pio XII. 
Em julho de 1959 iniciaram-se as obras. No dia 10 de maio de 1972, aniversário da cidade (25 anos), festejou-se o término da estrutura. No dia 31 de dezembro do mesmo ano, Dom Jaime celebrou a primeira missa na catedral nova. A Casa de Deus, que o povo de Maringá construiu em união com o primeiro bispo da diocese, está lá até hoje e lá estará por todo o sempre, como realização máxima da geração desbravadora. Quantos ajudaram a erguer tão belo símbolo de fé? Quanto suor de quantos operários? Quantas sacas de café doadas por pequenos e grandes agricultores? Quantas moedinhas oferecidas por humildes fiéis? 
Um bispo peitudo e um povo generoso e forte. A fé faz maravilhas. 


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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 25-6-2020)